18/08/2009

Tédio

Tédio é a condição do «estar aí» manifestada em desconcentração perante o contingente. Decorre de se viver no presente e tem função criativa. É motivado pelo desinteresse e insatisfação da orientação da vida seguida.
Contorna-se o tédio no desejo de simpatia e passividade promovidos em espectáculos e actividades habituais, realizados nas rotinas quotidianas, na prática dos «bons/brandos costumes» e devoções. O tédio expressa-se em paixão e paciência quando aceite como universal, reflexos do seu reencontro enquanto condição inerentemente humana. Este sentimento é um estado de ânimo ansioso com função ética. Evoca em situação um sinal de aviso das falhas, perigos e erros pessoais face à possibilidade de os reactualizar. Este envolvimento vulnerável da atenção é geralmente derivado de preocupações, nomeadamente com o devir, o desconhecido e a morte tendo por pano de fundo o sofrimento com a mudança, num espectro cromático de receios, expectativas apreensivas e introversões. A liberdade desta abstracção corpórea acontece nos momentos de decisão. Nestes, a liberdade é situada num contexto, ou seja num projecto de vida. Não escolher é decidir pela dependência que leva a uma tristeza e dispersão do Eu. Na sobrevalorização da infinitude, apaga-se a alma!

Além-Tédio
«Nada me expira já, nada me vive –
Nem a tristeza nem as horas belas
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.
Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital …
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.
Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.
Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu… Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!
Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura
Me sequei todo, endureci de tédio.
E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia-a-dia
Cada vez mais velozes, mais esguios…»
Mário Sá – Carneiro

Atinge-se temporariamente o «Além-Tédio» na e com … arte. A arte como método de construção da vida. Arte como fusão de revelação de si e, simultânea, descoberta do Mundo. Ao surgir da realidade e voltar-se para esta, dá-se a realização no «Eu de um Tu».
A responsabilidade de viver em situação vem da consciência da necessidade de luta com função criativa;
A responsabilidade de viver em situação aparece da resposta de Amar sem se perder;
A responsabilidade de viver em situação acontece na queda - a sua, na perda - de um Outro. Disso escreve Joaquim Parra Marujo, recontador de uma estória biográfica, graças a uma apendicite,

«A ESTÓRIA DO COELHO BELOAMOR,

Era uma vez um coelho que se chamava Beloamor; tinha lindos e farfalhudos bigodes pretos, orelhas de cetim cor-de-rosa, um pêlo suave de cor acastanhado e os olhos encarnados, vivos, reluziam numa auréola de pêlos brancos.
Durante anos esteve esquecido e abandonado dentro de um armário de brinquedos, e ninguém lhe ligava patavina. Era o Beloamor era tímido; e os brinquedos, mecanizados e robotizados com um olhar frio, metálico e superior, gozavam e desprezam-no.
A tristeza e a solidão entrou no coração do coelho Beloamor, e todos, se riam da sua amargura.
Sentado a um canto, as lágrimas corriam-lhe pela face abaixo,. e sentiu uma mão a afagar-lhe a face. Era um velho e sapiente urso, de peluche, que lhe disse:
- "Coelho Beloamor, não ligues importância aos brinquedos mecanizados e robotizados. Eles vangloriam-se e pavoneiam-se mas dentro em breve estragar-se-ão. Eles são a pura magia de um amor de Verão; e acabam os seus dias num caixote de lixo.
Tu, coelho Beloamor, ainda um dia poderás ser real e eles nunca o serão."
* O que é ser real amigo ursinho????
- "Ser real, não é ter uma chave exterior ou pilhas enventradas dentro de nós, SER REAL é quando uma criança gosta de nós e nos ame durante anos e anos a fio. É ser a mascote. Não apenas para brincar mas para viver um projecto de vivência em comum."
* Oh ... quem me dera ser real.
- "Talvez ainda chegue o teu dia. E quando isto acontecer que saibas, coelho Beloamor, usufruir ao [e] fruir dessa felicidade.
Quando isso acontecer perdes o pêlo, ficas gasto e coçado de tantos abraços e festas que te dão; e os olhos chegam a cair; por vezes ficam completamente desconjuntados."
* Ah ... mas depois ficamos horríveis e feios.
- "Nunca seremos feios nem horríveis para quem nos ame, Coelho Beloamor. Seremos sempre bonitos aos olhos de quem nos ama.
Feios só para aqueles que nunca sentiram um dia o que é amarem, o que é o amor e o que é ser amado."
(...)
De repente a porta do armário dos brinquedos abriu-se e uma "baby sitter" retirou de lá o coelho Beloamor, pois o seu menino não conseguia adormecer por ter perdido o seu macaco de estimação.
Puxando-me pelas orelhas fui levado de imediato para a cama do meu dono.
- "Aqui tens o teu velho coelho. Agarra-te a ele e vê se dormes."
* Ao princípio não gostei, mesmo nada, dos abraços nem das festas, e muito dificilmente consegui repousar nessa longa noite.
Com o desenrolar do tempo habituei-me, e até comecei a gostar pois o meu menino conversava, brincava, afagava-me, acariciava-me; e, quando ele dormia, enroscava-me debaixo do seu quente e doce corpinho, e sonhava como era bom ser REAL e importante para o meu Dono.
Para onde o menino fosse, o coelho Beloamor ia com ele.
O menino não sabia viver sem o seu coelhinho, e eram dois amigos inseparáveis; e lá em casa todos os membros da família metiam-se com o menino por causa do Coelho Beloamor.
Finalmente descobri como era verdade as palavras ditas pelo velho e sábio URSO, tão real que sentia o grande amor que o meu menino tinha por mim.
* Ah como é bom termos alguém que nos ame!
(...)
Com o passar dos anos o coelhinho Beloamor tornou-se velho, feio e coçado de tantas carícias, meiguices e festas. O pêlo desbotou, os bigodes desapareceram, os olhos caíram e as orelhas perderam a sua cor mas o menino amava-o, cada vez mais intensamente, e amiudadamente dizia-lhe:
- "gosto muito de ti meu coelhinho. Como tu és tão bonito, tão lindo e tão belo! És a minha maior fortuna. Amo-te tanto, coelhinho.
(...)
Certo dia o meu menino adoeceu.
Gente muito estranha entrava e saía do quarto, constantemente, durante dias e dias e dias sem conta; e, numa azáfama permanente, cuidavam do meu dono.
Com medo que me separassem do meu querido e adorado menino, escondia-me debaixo dos cobertores. Nem me mexia com medo que me descobrissem e me levassem novamente para o armário de brinquedos.
A febre desapareceu; o menino ficou melhor e já lhe permitiam deambular pelo quarto; e o meu menino levava-me bem aconchegado no seu peito. Como me sentia orgulhoso, contente, radiante e feliz!
Chegou a Primavera. O meu menino iria restabelecer-se, para a praia, da sua grave e prolongada doença.
Subitamente, a porta do quarto escancarou-se, e o médico entrou; e, olhando, com os olhos esbugalhados, para o coelho, disse num tom irado:
- "Queimem esse nojento coelho. Ele é uma autêntica porcaria. Um verdadeiro ninho de micróbios de escarlatina.
Queimem-no imediatamente; e arranjam-lhe outro brinquedo"
Fui colocado no caixote de lixo, para ser queimado pelo jardineiro no outro dia.
Nessa longa e escura noite, enquanto o meu menino dormia tranquilamente e feliz, e sonhando com princesas e castelos encantados na estância da praia, o coelho Beloamor, na quinta, chorava desesperadamente, e sentiu uma tristeza enorme que lhe corroía a alma.
Com os seus botões, pensou:
* De que serviu ser amado, perder a beleza e tornar-se real, se tudo acabava daquela maneira tão drástica e horripilante – incinerado –.
E uma lágrima, uma lágrima real, deslizou suavemente pelo narizito de veludo, já coçado, do coelho Beloamor.
A lágrima cai em terra, e no sítio onde ela bate, nasce uma flor maviosa e misteriosa.
As pétalas eram douradas e no centro a corola de um encarnado vivo e brilhante assemelhava-se a um grande rubi.
Quando a segunda lágrima caiu, a flor desabrochou, e de dentro dela saiu a mais bela e linda fada do universo. Pegou com muita ternura no coelho Beloamor. Beijou-lhe meigamente o nariz e disse-lhe docemente:
- "Sou a fada que transforma em real aqueles que sabem amar silenciosamente até doer."
Com um toque da varinha mágica metamorfoseou o Coelho Beloamor num coelho Verdadeiro, Real, que desatou a correr e a saltar pelo frondoso e lindo bosque.
O tempo decorreu linearmente – Verão, Outono, Inverno – e numa Primavera, quando as flores campestres nascem e o Sol aquece o coração, o menino, já homem, foi passear para o bosque e, enquanto deambulava, o Coelho Beloamor saiu-lhe furtivamente de entre as giestas e os fetos.
O menino/homem parou, olhou para o coelho e sorriu.
- "Mas parece o meu velho Coelho que foi queimado quando estive doente."
Olhei para o meu menino e pensei:
* Nunca saberás que foste TU que me ajudaste a ser REAL; e contigo aprendi a amar, e fui amado.
Contigo aprendi que não é importante quem nós amamos mas sim QUEM NOS AME.»


A Existência, sendo “fôlego de vida da anǐma atenta”, acontece graças à dicotomia que encerra o pathus, fonte que a anima. O patológico tem na raiz epistemológica a afectação e a afeição do Ser-no-Mundo. Esta sensibilidade humana pode ser fôlego de vida quando se ama em silêncio. A vulnerabilidade pode, porém, ser fragilidade quando se carece do Outro para Ser-no-Mundo.
Sociedades capazes de utilizar a inteligência emocional, elevam-se tanto no domínio social como no económico. A alegria move artes, acções grandiosas e estáveis se comparadas ao seu antónimo!
A Esperança é necessária à renovação social. Não se pode prever mas agir … Lembrando Jorge de Sena: «Tem tanta pressa o corpo! E já passou, quando um de nós ou quando o amor chegou!».


Ana Cláudia Pereira Carvalho

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